Mateus adorava pássaros. E ele não os adorava de um jeito normal: a fascinação era tamanha que seu maior sonho era voar. Quando olhava para o céu e via aqueles pequenos pontos negros pairando entre as nuvens não sentia outra coisa senão uma vontade imensa de se tornar pássaro, e abarcar o céu inteiro.
E ele era sortudo, pois na fazenda onde morava havia vários pássaros grandes e coloridos. A maior alegria do menino era sentar-se no meio de uma clareira, espalhar pequenos frutos ao seu redor e ficar lá, quietinho feito estátua, esperando os bichinhos chegarem para comer. Isso funcionava especialmente no inverno, quando as frutas eram escassas na floresta. E quando eles chegavam em uma colorida revoada e se aproximavam constrangidos, ah, que alegria! Por trás daquela estátua de menino havia um verdadeiro turbilhão.
-Mateus! Sai desse mato e volta pra casa, menino!
A mãe não entendia a vontade do garoto. E também não entendeu quando ele chegou com um par de asas feitas à mão com dois pedaços de tiras e milhares de penas embaixo.
-O que você vai fazer com isso, filho?
-Nada mãe, é só um brinquedo.
Mas ele sabia que não era apenas isso. Durante dias ele vinha trabalhando naquelas asas feitas com as penas de pássaros que caiam ao chão. Ainda estava na metade, mas, quando sua mãe descobriu não dava mais para esconder. Fez os últimos preparativos e correu para um penhasco próximo à sua casa.
Chegando lá, viu que o penhasco era maior do que imaginara, mas não deu importância.
Eu vou realizar meu sonho. Com uma imensa alegria enfiou cuidadosamente os bracinhos na pequena tira de couro e se preparou para o voo. Uma grande revoada de pássaros rasgou o céu sobre sua cabeça .
Essa é a hora. Em um impulso, Mateus abre os braços e salta, sentindo o vento entrar forte pelos pulmões e bagunçar seus cabelos. Penas ruflam ao seu redor em um balé pulsante. Olha rapidamente para baixo vendo o chão se aproximar rápido, como um monstro prestes a engoli-lo. E, em um confuso piscar de olhos, Mateus abre asas e sobe novamente, se sentindo leve como nunca. Seus pés não tocam o chão, e ele quer que nunca mais toquem. Foi voando, voando, até atingir as nuvens e atravessá-las, densas, sentindo um frio na barriga ao perceber o quão maravilhoso é o milagre da criação.
E quem passasse aos pés do grande penhasco naquele dia veria uma imagem um tanto chocante: um garoto caído no chão, sem vida, com milhares de penas ao seu redor e um vibrante sorriso no rosto.